"De skate eu vim de skate eu
vou"
A
cidade de Juazeiro do Norte vista Sobre o olhar dos skatistas
Basta uma olhada e todo o espaço urbano se
reinventa no pensamento de um skatista, escadarias, corrimãos, calçadas e
rampas de acesso viram obstáculos para serem transpostos de forma ariscada pelos
praticantes de skate.
O skate surgiu na Califórnia EUA por volta da
década de 1960. Criado por surfistas cansados de esperar por ondas em épocas de
maré baixa, eles inventaram um jeito de surfar no asfalto. Assim o skate saiu
do mar para a cidade, da águas para as ruas. De lá pra cá ganhou visibilidade e
segundo a CBSK Confederação Brasileira de Skate, se tornou um dos esportes mais
praticados do mundo. Em Juazeiro do Norte a partir dos dados da AJUSK –
Associação Juazeirense de Skate, o número de skatistas já ultrapassa uma
centena. Dividido em vários pequenos grupos que se reúnem em vários cantos da
cidade para praticar o esporte.
Os espaços urbanos e os desafios
Juazeiro do Norte terra de fé e
peregrinações. É também uma cidade em desenvolvimento econômico, urbano e
populacional. Visto o crescimento que vem ocorrendo nos últimos anos, é notório
o agrupamento de diversas “tribos” dessa urbe em locais característicos desse
desenvolvimento urbanístico na cidade. Já o skate é um esporte radical praticado
em espaços apropriados ou não, mas que necessita de um certo aspecto urbano
para poder ser praticado. Tem sua origem na rua, ou seja, no espaço urbanizado.
Essa aproximação do skate com a cidade vem desde os primórdios do esporte. Nesse
aspecto a cidade e o skate são inerentes.
A cidade moderna traz consigo uma
fragmentação social. As tribos urbanas são efeito dessa fragmentação. O desejo
de agrupamentos e sociabilidades são um dos aspectos desses grupos. A tribo dos
skatistas se apropriam dos espaços urbanizados para praticarem o skate, são
pessoas com um estilo de vida próprio e que escolhem determinados locais da
cidade para se reunirem e andar de skate, são citadinos que fazem parte da vida
urbana e da sua organicidade. A cidade em seus aspectos mais subjetivos se
transforma em um território apropriado. A escolha desses locais segundo Paulo
Alves, skatista, professor de educação física e personal skater, é “A oportunidade. Quando vemos um local que
pode ser aproveitado. Muitas vezes que não esta ocupado e que é possível
praticar o skate, ae passamos a freqüentar. E por saber que teoricamente todos
temos direitos de utilizar o que é publico. Utilizamos”.
A cidade, como utilizamos
A cidade de Juazeiro do Norte se desenvolve
urbanisticamente sem planejamento, o que gera transtorno de circulação por
parte dos cidadãos. Isso é mais visivelmente no centro da cidade onde um
emaranhado de pessoas transita diariamente. Aparentemente a mobilidade urbana é
um problema de toda cidade de médio e grande porte, a cidade da fé Caririense
tem suas peculiaridades no que se refere ao altíssimo contingente de pessoas,
principalmente nas épocas em que há peregrinação de romeiros, a cidade se torna
um caos. Por conta do seu desenfreado projeto imobiliário especulativo, que vem
agravando cada vez mais a mobilidade urbana e o meio ambiente.
Mas para o skatista esse desenvolvimento
urbano tem lá seu lado bom, pois é com esse alargamento da cidade que o skate
encontra seus variados locais de diversão e pratica esportiva. A cidade quanto
mais urbanizada mais apresenta variações e espaços para a apropriação dos
skatistas, locais esses reinventados e transformados em points, locais de encontro dos skatistas. Muitas vezes o
deslocamento desse grupo depende muito das construções que vão se estabelecendo
na cidade. De diferentes modos os skatistas vão se agrupando em locais urbanizados
e fazendo desses locais seus pontos de encontros.
A cidade moderna desempenha
um papel fundamental nos rituais de agrupamento da tribo skatista, pois os
diversos aspectos que se apresenta é visto de forma adaptável para a pratica do
skate, praças, bancos, calçadas etc. é sempre visto como obstáculo a transpor
de forma arriscada causando assim prazer e emoção nos skatistas. É neste
sentido que os skatistas usufrui da cidade se utilizando dos espaços públicos para
reinventar e criar novas possibilidade de circulação. Paulo Alves diz o
seguinte: “Temos uma visão diferente da
arquitetura da cidade. Onde outras pessoas vêem uma escadaria com piso liso, eu
vejo um local muito apropriado para tentar transpor através de um salto com o
skate. Buscando superar meus medos. Testar minhas capacidades físicas como:
força de membros inferiores (pernas.) coordenação motora e equilíbrio dinâmico
para poder me equilibrar antes, durante e depois de executar uma manobra, seja
numa escada ou num corrimão”.
As percepções
Neste sentido a cidade é reinventada a todo
instante pelos skatistas que as ver com outro olhar, não com o olhar do
pedestre, do motorista, dos comerciantes do centro que a observam como circulação
mecânica rotineira, mas com um olhar mais radical, que ver os diversos espaços
se modificando todos os dias e possibilitando novas formas de transpor cada
lugar que possam ter acesso. O estilo street para o skate é a apropriação da
rua, o espaço pode não ser
apropriado, mas pode se tornar apropriado.
Assim o skatista vivencia a paisagem urbana
como transeunte e como cidadão. Porque além de transporte, não poluente, o
skate é também esporte, cultura e estilo de vida que proporciona cidadania e um
sentimento de liberdade. Para o skatista a cidade moderna apresenta
diversidade, como diz o cantor chorão da banda Charlie Brown Jr. “De skate eu vim de skate eu vou” mostrando
que para o skatista a cidade é além de tudo transitável e que das diferentes
formas que a cidade é vista pelos pedestres o skatista não pode negar que o
desenvolvimento urbano é aliado do skate.
Por: Damião Teles