terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A cidade de Juazeiro do Norte vista Sobre o olhar dos skatistas

"De skate eu vim de skate eu vou"
         A cidade de Juazeiro do Norte vista Sobre o olhar dos skatistas

   Basta uma olhada e todo o espaço urbano se reinventa no pensamento de um skatista, escadarias, corrimãos, calçadas e rampas de acesso viram obstáculos para serem transpostos de forma ariscada pelos praticantes de skate.


O skate surgiu na Califórnia EUA por volta da década de 1960. Criado por surfistas cansados de esperar por ondas em épocas de maré baixa, eles inventaram um jeito de surfar no asfalto. Assim o skate saiu do mar para a cidade, da águas para as ruas. De lá pra cá ganhou visibilidade e segundo a CBSK Confederação Brasileira de Skate, se tornou um dos esportes mais praticados do mundo. Em Juazeiro do Norte a partir dos dados da AJUSK – Associação Juazeirense de Skate, o número de skatistas já ultrapassa uma centena. Dividido em vários pequenos grupos que se reúnem em vários cantos da cidade para praticar o esporte.

Os espaços urbanos e os desafios
  Juazeiro do Norte terra de fé e peregrinações. É também uma cidade em desenvolvimento econômico, urbano e populacional. Visto o crescimento que vem ocorrendo nos últimos anos, é notório o agrupamento de diversas “tribos” dessa urbe em locais característicos desse desenvolvimento urbanístico na cidade. Já o skate é um esporte radical praticado em espaços apropriados ou não, mas que necessita de um certo aspecto urbano para poder ser praticado. Tem sua origem na rua, ou seja, no espaço urbanizado. Essa aproximação do skate com a cidade vem desde os primórdios do esporte. Nesse aspecto a cidade e o skate são inerentes.

  A cidade moderna traz consigo uma fragmentação social. As tribos urbanas são efeito dessa fragmentação. O desejo de agrupamentos e sociabilidades são um dos aspectos desses grupos. A tribo dos skatistas se apropriam dos espaços urbanizados para praticarem o skate, são pessoas com um estilo de vida próprio e que escolhem determinados locais da cidade para se reunirem e andar de skate, são citadinos que fazem parte da vida urbana e da sua organicidade. A cidade em seus aspectos mais subjetivos se transforma em um território apropriado. A escolha desses locais segundo Paulo Alves, skatista, professor de educação física e personal skater, é “A oportunidade. Quando vemos um local que pode ser aproveitado. Muitas vezes que não esta ocupado e que é possível praticar o skate, ae passamos a freqüentar. E por saber que teoricamente todos temos direitos de utilizar o que é publico. Utilizamos”.

A cidade, como utilizamos
   A cidade de Juazeiro do Norte se desenvolve urbanisticamente sem planejamento, o que gera transtorno de circulação por parte dos cidadãos. Isso é mais visivelmente no centro da cidade onde um emaranhado de pessoas transita diariamente. Aparentemente a mobilidade urbana é um problema de toda cidade de médio e grande porte, a cidade da fé Caririense tem suas peculiaridades no que se refere ao altíssimo contingente de pessoas, principalmente nas épocas em que há peregrinação de romeiros, a cidade se torna um caos. Por conta do seu desenfreado projeto imobiliário especulativo, que vem agravando cada vez mais a mobilidade urbana e o meio ambiente.


  Mas para o skatista esse desenvolvimento urbano tem lá seu lado bom, pois é com esse alargamento da cidade que o skate encontra seus variados locais de diversão e pratica esportiva. A cidade quanto mais urbanizada mais apresenta variações e espaços para a apropriação dos skatistas, locais esses reinventados e transformados em points, locais de encontro dos skatistas. Muitas vezes o deslocamento desse grupo depende muito das construções que vão se estabelecendo na cidade. De diferentes modos os skatistas vão se agrupando em locais urbanizados e fazendo desses locais seus pontos de encontros.

A cidade moderna desempenha um papel fundamental nos rituais de agrupamento da tribo skatista, pois os diversos aspectos que se apresenta é visto de forma adaptável para a pratica do skate, praças, bancos, calçadas etc. é sempre visto como obstáculo a transpor de forma arriscada causando assim prazer e emoção nos skatistas. É neste sentido que os skatistas usufrui da cidade se utilizando dos espaços públicos para reinventar e criar novas possibilidade de circulação. Paulo Alves diz o seguinte: “Temos uma visão diferente da arquitetura da cidade. Onde outras pessoas vêem uma escadaria com piso liso, eu vejo um local muito apropriado para tentar transpor através de um salto com o skate. Buscando superar meus medos. Testar minhas capacidades físicas como: força de membros inferiores (pernas.) coordenação motora e equilíbrio dinâmico para poder me equilibrar antes, durante e depois de executar uma manobra, seja numa escada ou num corrimão”.

As percepções 
 Neste sentido a cidade é reinventada a todo instante pelos skatistas que as ver com outro olhar, não com o olhar do pedestre, do motorista, dos comerciantes do centro que a observam como circulação mecânica rotineira, mas com um olhar mais radical, que ver os diversos espaços se modificando todos os dias e possibilitando novas formas de transpor cada lugar que possam ter acesso. O estilo street para o skate é a apropriação da rua, o espaço pode não ser apropriado, mas pode se tornar apropriado.

  Assim o skatista vivencia a paisagem urbana como transeunte e como cidadão. Porque além de transporte, não poluente, o skate é também esporte, cultura e estilo de vida que proporciona cidadania e um sentimento de liberdade. Para o skatista a cidade moderna apresenta diversidade, como diz o cantor chorão da banda Charlie Brown Jr. “De skate eu vim de skate eu vou” mostrando que para o skatista a cidade é além de tudo transitável e que das diferentes formas que a cidade é vista pelos pedestres o skatista não pode negar que o desenvolvimento urbano é aliado do skate.


Por: Damião Teles